Estratégias de Expansão na Indústria Farmacêutica: Do Cheque Bilionário da Angelini à Resiliência da Hanmi na China

O tabuleiro da indústria farmacêutica global está passando por rearranjos agressivos neste ano. De um lado, vemos o apetite voraz por aquisições bilionárias transatlânticas para dominar nichos altamente especializados. Do outro, a prova de que fincar o pé e dominar as complexidades de um mercado local volátil pode gerar o caixa necessário para bancar as inovações do futuro. Dois movimentos recentes expõem bem essas táticas contrastantes, mas que no fim das contas buscam o mesmo objetivo: blindar os pipelines de longo prazo.

A Cartada de 4,1 Bilhões de Dólares da Angelini Pharma

A italiana Angelini Pharma resolveu abrir a carteira e entrar de sola no mercado americano. A empresa assinou um acordo definitivo para comprar a Catalyst Pharmaceuticals por um valor patrimonial na casa dos 4,1 bilhões de dólares (cerca de 3,5 bilhões de euros). A proposta coloca na mesa 31,50 dólares por ação em dinheiro vivo, um negócio que já recebeu sinal verde de ambos os conselhos de administração e tem tudo para ser sacramentado no terceiro trimestre de 2026.

Essa movimentação tem um alvo muito claro: o mercado de doenças raras e saúde mental. Com o caixa financiado pelo BNP Paribas — que atua como coordenador global e subscritor da operação — e uma mãozinha de fundos da Blackstone, a Angelini vai absorver um portfólio de terapias neuromusculares e neurológicas que a Catalyst construiu com bastante rigor.

Estamos falando de drogas como o Firdapse (amifampridina), aprovado nos EUA para tratar a síndrome miastênica de Lambert-Eaton em pacientes a partir de seis anos, e o Agamree (vamorolona), um corticosteroide voltado para a distrofia muscular de Duchenne. O pacote ainda leva o anticonvulsivante Fycompa (perampanel), cujos direitos americanos a Catalyst havia arrematado da Eisai lá em 2023.

Na visão do CEO da Angelini, Sergio Marullo di Condojanni, esse não é um passo qualquer. A aquisição da Catalyst consolida a fabricante como um player de peso absoluto no cenário global de doenças neurológicas raras. A ideia é fundir a infraestrutura que a Catalyst já tem rodando nos Estados Unidos com a expertise europeia da Angelini, criando uma plataforma terapêutica robusta, enquanto a Itália segue firme como o motor industrial do grupo.

O Oásis de Lucratividade da Beijing Hanmi na China

Se a expansão para os americanos exige aquisições astronômicas, no Oriente a tática de guerrilha comercial e resiliência mostra sua força. A Beijing Hanmi Pharmaceutical, o braço chinês do Hanmi Group da Coreia do Sul, acaba de inaugurar o que eles vêm chamando de “era dos 400 bilhões”. Pela primeira vez desde que foi criada em 1996, a subsidiária quebrou a barreira dos 400 bilhões de won (aproximadamente 272 milhões de dólares) em vendas anuais.

Mesmo operando num ecossistema conhecido por ser instável, a subsidiária fechou 2025 com receitas de 402,4 bilhões de won e um lucro operacional de 77,7 bilhões. Isso é fruto de quase trinta anos entendendo as minúcias locais. Para a matriz, a Hanmi Pharmaceutical (que detém 73,68% do negócio), a filial chinesa virou uma verdadeira vaca leiteira que garante a estabilidade financeira de todo o conglomerado.

Só no ano passado, pingaram na conta da matriz cerca de 9 bilhões de won em dividendos. Se puxarmos o histórico desde 2009, essa transferência de caixa já acumula 138 bilhões de won. Para 2026, a Beijing Hanmi cravou um payout de 50% sobre o lucro líquido, o que se traduz num bolo de 38,5 bilhões de won (ou 175 milhões de yuans), dos quais 28,4 bilhões vão direto para a matriz sul-coreana. E esse dinheiro não fica parado no banco; ele é o combustível pesado que financia o braço de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de novos medicamentos inovadores do grupo, criando um ciclo onde a operação local banca a expansão global.

Como Sobreviver à Caneta do Governo Chinês

Navegar o sistema de saúde chinês exige estômago, principalmente com a política governamental de compras por volume (VBP, na sigla em inglês), que costuma espremer as margens das farmacêuticas. A sacada da Beijing Hanmi foi encarar a pressão de preços não como o fim do mundo, mas como um pretexto para enxugar a própria operação. Eles otimizaram a manufatura e ampliaram as instalações produtivas para derrubar o custo de produção, mantendo a rentabilidade intacta.

Hoje, a teia comercial da empresa abraça em torno de 9 mil hospitais e tem contato com mais de 200 mil profissionais de saúde por toda a China. O alicerce desse sucesso vem de figurinhas carimbadas no mercado pediátrico e respiratório: o tratamento para constipação Litong, o supressor de tosse Yianping e o remédio respiratório Yitanjing. Mas eles já perceberam que o teto precisa subir. Aproveitando essa base sólida, a Beijing Hanmi está esticando seus tentáculos para a área de doenças crônicas, desenvolvendo uma linha focada em diabetes e hipertensão sob medida para o paciente chinês.

Tanto no caso da investida bilionária da Angelini nos EUA quanto na construção formiguinha da Hanmi na China, o que fica claro é que garantir fôlego financeiro no cenário atual exige muito mais do que apenas descobrir uma molécula revolucionária no laboratório. Depende, fundamentalmente, da capacidade de orquestrar xadrez financeiro em escala global.