A presença da Hyundai nas ruas brasileiras é algo tão comum hoje que fica difícil imaginar o mercado automotivo sem a sua influência. A montadora sul-coreana começou a ganhar tração de verdade por aqui em meados de 2009, apostando pesado em campanhas publicitárias. O grande divisor de águas, no entanto, ocorreu no final de 2012. Foi nesse momento que a marca inaugurou sua fábrica em Piracicaba, no interior paulista, dedicando-se inicialmente à produção do HB20, um hatch que rapidamente se tornaria um verdadeiro fenômeno de vendas. Essa dedicação em entregar tecnologia e um design atraente a preços competitivos moldou a reputação da fabricante no país. Mas a história da empresa vai muito além dos compactos urbanos, abraçando clássicos marcantes do passado e, agora, apontando para um futuro agressivo no segmento off-road.
Os pioneiros que pavimentaram o caminho
Muito antes de o consumidor brasileiro se apaixonar pelas linhas modernas dos carros atuais, a Hyundai já ensaiava seus passos globais. O pontapé inicial ocorreu em outubro de 1974 com o Pony, revelado ao público durante o Salão de Turim, na Itália. Sendo o primeiro automóvel produzido em massa pela companhia, ele trazia uma carroceria de linhas esportivas, ampla área envidraçada e um modesto motor Mitsubishi 1.2 de quatro cilindros, entregando 82 cv com tração traseira. O compacto fez tanto barulho que chegou a dominar 43,5% do mercado sul-coreano e foi comercializado no concorrido mercado norte-americano por apenas 4.995 dólares em sua versão de entrada. Sua produção foi encerrada em janeiro de 1990, após mais de 360 mil unidades fabricadas. O impacto do carro foi tamanho que, quase meio século depois, a fabricante reconstruiu o conceito em uma pegada retro-futurista, inspirando diretamente a criação do elétrico IONIQ 5 e do N Vision 74.
Conforme a marca amadurecia, o portfólio passou a incluir o segmento de luxo e os sedãs executivos. O Sonata nasceu em 1985 na Coreia do Sul, mas só desembarcou no Brasil muito tempo depois, em outubro de 2010. Ele foi o grande responsável por introduzir a elogiada linguagem visual “escultura fluida” aos consumidores nacionais, oferecendo cinco anos de garantia e um preço inicial de 92 mil reais. Escondendo sob o capô um motor 2.4 de 16 válvulas e 200 cv de potência, aliado a um câmbio automático de seis marchas, o carro virou símbolo de status. Em 2012, o modelo alcançou a impressionante marca de 230 mil unidades vendidas. As vendas, porém, começaram a cair logo depois devido a uma concorrência dentro da própria vitrine da loja: o Azera.
Produzido globalmente desde 1986, o Azera já estava em sua quarta geração quando chegou ao Brasil em 2007. Longe de ser um veículo popular, o sedã luxuoso de quase cinco metros de comprimento entregava um pacote imbatível de conforto e potência por cerca de 110 mil reais. Disponível com um forte motor V6 de 24 válvulas, capaz de gerar 245 cv e 31 kgfm de torque, ele cativou o público pelo excelente custo-benefício, acabando por ofuscar o Sonata e firmando o nome da montadora no segmento premium.
Uma guinada radical rumo à terra e ao aço
Se o passado da fabricante foi consolidado sobre hatchbacks econômicos e sedãs elegantes, a próxima década promete uma abordagem brutalmente diferente. A Hyundai não esconde de ninguém a sua vontade de entrar na briga das picapes pesadas e finalmente revelou as primeiras imagens da sua futura plataforma com chassi sob carroceria. A prévia dessa inovação atende pelo nome de Boulder Concept, um SUV de formas quadradas que antecipa a tão aguardada picape média da marca, prevista para ganhar as ruas até 2030, além de um provável utilitário esportivo com foco no fora de estrada.
Desenhado nos Estados Unidos, o conceito introduz a linguagem estética “Art of Steel”, que deu as caras recentemente no Salão de Nova York. Esqueça completamente as linhas fluidas de uma década atrás. O Boulder adota uma postura imponente e rústica, garantindo ângulos de ataque e saída agressivos, além de uma generosa capacidade de imersão na água. O visual lameiro é arrematado por pneus de 37 polegadas e um estepe montado em tamanho real na tampa do porta-malas. Essa tampa traseira, inclusive, inova ao trazer uma dobradiça dupla que permite a abertura em ambas as direções, acompanhada por um vidro que desce eletricamente.
A cabine mergulha em uma atmosfera que mistura nostalgia e futuro, quebrando o padrão atual da indústria automotiva. Em vez de entulhar o painel com telas gigantescas e distrativas, os projetistas optaram por eliminar o quadro de instrumentos tradicional. As informações essenciais do veículo são projetadas diretamente na parte inferior do para-brisa, funcionando como um display head-up que cruza toda a extensão do vidro. Logo abaixo, o painel de formato arredondado abriga apenas quatro pequenas telas quadradas equipadas com comandos físicos, uma escolha de design que promete ser bastante funcional.
Ainda é um pouco cedo para definir com exatidão a motorização oficial, visto que o desenvolvimento dessa nova plataforma estrutural está em seus estágios iniciais. Contudo, a expectativa é que a arquitetura seja versátil o suficiente para suportar desde opções totalmente elétricas até conjuntos híbridos e a combustão convencional. Fica claro que a montadora quer desbravar novos territórios, levando a mesma ambição que a tornou gigante nos centros urbanos direto para o coração do universo off-road.