O WhatsApp além das conversas: do “bloco de notas” nativo à polêmica dos chatbots de IA no Brasil

O WhatsApp transcendeu sua função original de simples troca de mensagens instantâneas, consolidando-se como uma ferramenta multifuncional no cotidiano dos brasileiros. Seja servindo como um repositório pessoal de arquivos ou como interface para interações complexas com inteligência artificial, o aplicativo da Meta tem passado por atualizações significativas e enfrentado escrutínio regulatório recente, especialmente no que tange ao mercado brasileiro.

O fim do improviso para guardar informações

Durante anos, usuários veteranos da plataforma recorreram a um truque trabalhoso para conseguir salvar informações, fotos e listas de tarefas no aplicativo: criavam grupos com outra pessoa e, em seguida, removiam o participante para transformar o chat em um espaço privado. Essa “gambiarra” tornou-se obsoleta desde novembro do ano passado, quando uma atualização de software simplificou drasticamente o processo, oficializando o recurso de conversar consigo mesmo.

A funcionalidade transformou o chat pessoal em um local seguro e acessível para o armazenamento rápido de dados. O processo agora é intuitivo: ao abrir a lista de contatos para iniciar uma nova conversa, o próprio número do usuário aparece no topo da lista. Basta clicar sobre ele para abrir a janela de bate-papo e enviar textos ou arquivos. Essa facilidade reforça o uso do aplicativo como um bloco de notas digital, permitindo que lembretes e mídias sejam guardados sem a necessidade de aplicativos terceiros.

A disputa pelos chatbots de Inteligência Artificial

Enquanto o uso pessoal se simplifica, o uso corporativo e tecnológico do WhatsApp enfrenta turbulências. Em outubro passado, a Meta anunciou uma proibição direcionada a empresas de IA, como a OpenAI (criadora do ChatGPT) e a Perplexity. A diretriz impedia que essas companhias utilizassem a API do WhatsApp Business como interface principal para seus serviços, forçando os usuários a migrarem para os aplicativos oficiais dessas ferramentas.

A restrição, contudo, ignorava uma realidade particular de mercados emergentes. No Brasil, muitas operadoras de telefonia oferecem o uso do WhatsApp sem descontar da franquia de dados móveis (zero-rating). Isso torna o acesso ao ChatGPT via WhatsApp uma opção muito mais econômica e conveniente do que o uso do aplicativo ou site oficial da IA, que consomem o pacote de dados do usuário. Além disso, existe o fator familiaridade: para muitos, tratar a IA como apenas mais um contato na lista de conversas é mais natural do que navegar por novas interfaces.

Intervenção regulatória garante exceção ao Brasil e Itália

A tentativa da Meta de bloquear esses serviços, que entraria em vigor integralmente nesta semana, esbarrou nas autoridades de defesa da concorrência. Na Itália, a autoridade antitruste (AGCM) classificou a medida como potencialmente abusiva e anticompetitiva, argumentando que a conduta da Meta poderia limitar o desenvolvimento técnico e o acesso ao mercado, prejudicando os consumidores. A ordem foi clara: suspender a proibição imediatamente para preservar a concorrência.

Seguindo um caminho similar, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) no Brasil impôs uma medida preventiva que forçou a Meta a recuar. O órgão brasileiro abriu um inquérito administrativo para investigar os novos termos do WhatsApp e decidirá os próximos passos após a conclusão das análises.

Diante da pressão, a Meta confirmou que o Brasil e a Itália estão excluídos da proibição. Os termos de uso da solução Business foram atualizados com uma cláusula específica: embora a restrição a provedores de IA permaneça para o resto do mundo, tecnologias dessa natureza podem continuar sendo disponibilizadas para usuários com números de telefone registrados com os códigos de país do Brasil (+55) e da Itália (+39).

Enquanto a União Europeia conduz suas próprias investigações, que podem eventualmente expandir essa isenção para outros países do bloco, o cenário atual coloca os usuários brasileiros em uma posição privilegiada. Por enquanto, tanto a funcionalidade nativa de anotações pessoais quanto a liberdade de interagir com assistentes de IA de terceiros permanecem plenamente ativas no país.